sábado, 4 de dezembro de 2010

EU SEI, MAS NÃO DEVIA


nao-escuto-nao-vejo-e-nao-falo
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos
e a não ter outra vista que não as janelas ao redor.
E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas logo se acostuma a acender cedo a luz.
E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar o café correndo porque está atrasado.
A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem.
A comer sanduiche porque não dá para almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro,
para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma à poluição.
Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
À luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias de água potável.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer.
Em doses pequenas, tentando não perceber,
vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se a praia está contaminada a gente molha só os pés e sua no resto do corpo.
Se o cinema está cheio, a gente senta na
primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se o trabalho está duro a gente se consola pensando no fim de semana.
E se com a pessoa que a gente ama, a noite ou no fim de semana , não há
muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque
tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida.
Que aos poucos se gasta, e que gasta de tanto se acostumar, e se perde de si mesma.
(Marina Colasanti)

3 comentários:

  1. Não devia, mas é verdade!
    Pra não sofrer ainda mais, a gente se acostuma.

    “Só quem vive há anos numa situação de ‘inércia” por medo das feridas, dos sangramentos, é que sabe do que esse texto fala.

    Mas chega um momento em que é preciso dar um passo! Poupar a vida até quando? Até que ela se perca por si mesma?

    Perdemos bênçãos por medo de dar um passo ou mesmo por nos sentirmos inseguros, ou por duvidarmos que a voz que há tanto tempo vem falando ao coração é a do Senhor!
    Sofremos por insistirmos em estar no trono, comandando, direcionando.

    Palavra linda aquela que nos diz "Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos, diz o Senhor, porque assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos, e os meus pensamentos, mais altos que os vossos pensamentos" (Isaías 55:8-9)

    Sentimos medo por falta de fé, por não entendermos os caminhos do Senhor.


    Ma s sobre o medo, João nos diz que "No amor, não existe medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo. Ora, o medo produz tormento; logo, aquele que teme, não é aperfeiçoado em amor".

    Esse versículo nos revela que a cura para o medo é amar e deixar-se amar.

    Então o negócio, agora, é Amar! Confiar! Entregar a Deus nossos cuidados! E esperar!

    “Porque desde a antiguidade não se ouviu, nem com os ouvidos se ouviu, nem com os olhos se viu Deus além de ti, que trabalha para aqueles que Nele espera”.

    É hora de “sacudir as cinzas” e nos dar novas oportunidades, porque o Senhor, que nos ama, tem boas novas para cada um de nós!

    Deus te abençoe minha querida!

    ResponderExcluir
  2. o duroé que não da pra se acostumar, ai aja peito, sangramentos e feridas, e com a pele ralada nós vamos vivendo.

    ResponderExcluir
  3. Amei quero que vc seja minha terapeuta

    ResponderExcluir